Antes de mais, queridos Pardiófilos, quero apresentar em nome de toda a equipa, um enorme pedido de desculpas por esta demorada ausência de posts. A verdade é que nem sempre as nossas circunstâncias de vida nos permitem ter a disponibilidade para cumprir com as nossas obrigações e compromissos.
Mas estamos de volta, e isso é que importa!
Desta vez, quero falar-vos do nosso sistema de saúde… À 1ª vista, nada de interessante parece haver neste tema, mas as aparências iludem. Deixem-me contar-vos a história fictícia (mas baseada em factos reais) da Dona Beija de Paracatu, uma típica mulher portuguesa (muito embora o nome não pareça indicá-lo)…
D. Beija estava em casa, a cuidar carinhosamente dos seus 3 filhos (2 meninos e 1 rapariga adolescente), quando de repente a filha cai das escadas (de uma altura relativamente baixa – 3 degraus) e torce o pé. Ora, torcer o pé não é nada de grava o suficiente para ir ao hospital. Mas também não é inofensivo o suficiente para que não seja visto por um médico.
Por isso, a D. Beija tenta recorrer ao centro de saúde, ou como é agora conhecido, Unidade de Saúde Familiar (USF). Para isso, a D. Beija pega no panfleto (que tão ordinariamente lhe havia sido fornecido) e verifica que, para obter uma consulta com um técnico de saúde geral (a.k.a.: médico), precisa de efectuar um telefonema para o estabelecimento referido.
Assim, a D. Beija pega no telefone e marca os dígitos da USF da sua região. Atende, então (ao fim de inúmeras – quase 20 – tentativas de estabelecer ligação) uma senhora com uma voz bastante estridente, que começa por dizer “Boum Diá. Que deseijá?”. (Note-se que a transcrição da saudação da mulher pretende explicitar a sua pronúncia). A nossa querida D. Beija começa por explicar a situação, mas é interrompida pela mulher do outro lado do telefone: “Espere só 1 momentinho, sinhe?”…
A D. Beija não terá, então, outro remédio senão esperar…
… e esperar…
… e esperar…
… e esperar…
…………………… Até que, finalmente, a mulher volta a falar: “Olhe, pode repetir nobamente o que se passa, por fabor?”. Eis que D. Beija começa a perder a paciência, sabendo, no entanto, que tem que se sujeitar a estas condições para ser atendida. D. Beija recomeça a explicação da situação, sendo que é novamente interrompida… Diz então a mulher da USF: “Quem é o seu médico de famíliá?”, ao que D. Beija responde com coerência, tentando voltar à sua explicação. “Mas sabe que num pode ser assim?! Bocê tem que marcar com o médico de famíliá… Ele só está de manhã…”, diz a mulher da USF.
A D. Beija tenta esclarecer que de manhã não dá, porque tem os outros filhos para levar à escola, uma vez que o pai deles já foi trabalhar e não pode sair do trabalho. E como a filha torceu, efectivamente, o pé, não pode deslocar-se à USF. Por isso, terá de ser de manhã, como podemos nós constatar, dando razão à nossa estimada D. Beija.
“Ah, mas tem que ser com o médico de famíliá, ou intão, bá ao hospitale, e beija lá o que se passa, porque aqui, só dá com o médico de famíliá!”, volta a informar a mulher da USF, ao que a D. Beija responde com uma pergunta: “E se for com outro médico, não é igual? Se houver outro médico disponível, vai dar ao mesmo e é mais fácil para vocês e para mim…”
“Ai, não, não! Tem que ser com o médico de família, ou intão no hospitale. Agora, a sinhora decida-se.”
E nisto se passa cerca de meia hora, até que a D. Beija consegue marcar uma consulta de urgência para a tarde desse dia.
Podemos constatar que, de facto, o nosso sistema de saúde funciona mal, ou melhor: não funciona. Quer dizer, quem tiver uma doença que seja de gravidade relativamente baixa, sujeita-se a perder o seu tempo de trabalho (que lhe é preciso para poder pagar os impostos ao Estado) para ser acorrido pelo serviço nacional de saúde ou, então, tem que ir para o serviço privado. Ou seja, o Estado não providencia os seus cidadãos com um serviço nacional que funcione e seja benéfico para toda a gente. O médico de família só trabalha de manhã, de segunda a sexta; se alguém não puder ir devido à força de certas circunstâncias, então pode sempre tentar ser atendido por outro médico do centro de saúde. Ah, esperem: “tem que ser com o médico de famíliá”!!!!!
É claro que o hospital não é solução. Não é solução por funcionar mal, não! O hospital só não é solução porque, naturalmente, há gente com problemas de saúde mais graves do que um pé torcido. Ir ao hospital implica estar um longo período de espera pela atenção de um médico que, se calhar, tem outros problemas para resolver.
Por isso, lá está: ou se perde tempo e dinheiro à mercê dos horários de trabalho do médico de família na USF, ou então, perde-se tempo e dinheiro à mercê dos horários de trabalho de outro qualquer médico no seu consultório privado.
Concluímos, assim, que Portugal funciona. Funciona mal. Mal e porcamente. Funciona à portuguesa!
SocialVibe