Politiquices (Ep. XI, Parte B – Multifunções e multi-esterqueira portuguesa)

Este post é uma continuação ao Ep. XI (“Dos oportunistas e do resto”) da rubrica “Politiquices”. Vamos aqui referir-nos à classe médica portuguesa como um dos inúmeros exemplos de como este nosso país funciona mal e porcamente.

Note-se que o Pardieiro da Tojeira não tem qualquer tipo de preconceito contra a classe médica. O que achamos que está errado é o prestígio absurdamente ridículo que lhe é actualmente dado no nosso país. Basta repararmos na mentalidade das pessoas – as médias de entrada nos cursos de medicina são um exemplo disso, já que 80% dos alunos vai para o curso de medicina para ganhar dinheiro ou porque os pais assim o querem. Quanto ao primeiro caso, a remuneração da maioria dos médicos só é excessiva (comparativamente a outras classes de licenciados em Portugal) por causa do prestígio que é dado à classe médica neste país. Já no caso de os estudantes irem para medicina porque os pais querem, vê-se que a mentalidade do “medicina é que é bom!” já lhes está incutida no cérebro (ou ervilha com tecido nervoso equivalente a 2 neurónios: 1 para dormir e outro para pastar) há imensas gerações. Como resultado desta anencefalia dos pais, temos estudantes que sofrem de casos graves (mas muitos comuns) daquilo a que se chama “falta de independência vital, social, cultural e político-económica” ou, em termos mais leigos, “síndrome de obediência ao pastor”, em que as vítimas não têm opinião própria, fazendo copy-pastedas opiniões (já copiadas e coladas) daqueles que as rodeiam. Estamos, portanto, perante um ciclo vicioso que tem consequências mais graves do que pensamos.

Outro exemplo ainda mais aterrador e chocante é o facto de quase não se empregarem (por exemplo) psicólogos e psiquiatras nos hospitais e centros de saúde públicos. Isto só não é feito porque quem faz o trabalho destes profissionais são os médicos. Uma das (gravíssimas) consequências disto é a prescrição de medicamentos / tratamentos errados para casos erradamente diagnosticados, devido a uma clara e monumental ignorância nos assuntos referidos (o médico é licenciado em medicina, não no resto, pelo que só pode saber aquilo que estudou, naturalmente). Isto leva, obviamente, ao prejuízo económico e de saúde do utente.

Um último exemplo de como o serviço nacional de saúde deste país (acompanhado das mentalidades do “zé povinho” e do nosso Parlamento) está abaixo do nível de desenvolvimento de uma colónia de bactérias habitante no intestino de uma mula é o facto de todos estes aspectos culminarem na sobre-aproveitação dos nossos médicos – como lhes pagam balúrdios nos centros de saúde, os utentes têm de ser distribuídos pelos (poucos) médicos disponíveis. Assim, a disponibilidade e atenção dedicadas a cada utente diminui, o que pode constituir um grave problema na assistência aos pacientes. Como se ainda não bastasse, a distribuição dos utentes pelos médicos de família é feita sem consultar o utente, pelo que os médicos não sofrem qualquer processo de avaliação – temos, portanto, médicos incompetentes empregados e a receber o mesmo ou mais do que os competentes e merecedores do emprego que têm.

A conclusão que se retira disto tudo é que ou temos de facto médicos excepcionais que sabem de tudo (política, economia, psicologia, arte, literatura, etc) ou então temos um país que não sabe ver as prioridades nem sabe distribuir recursos. A hipótese mais plausível é, contudo, a 3ª: Portugal não sabe ser um país desenvolvido.

Politiquices (Ep. XI, Parte A – Dos oportunistas e do resto)

Bom dia, caros Pardiófilos!

Pedimos desculpas, antes de mais, por mais uma ausência longa e demorada, mas como sabem, há outros afazeres que se nos impõem e, por vezes, não é possível conciliarmos as coisas como gostaríamos.

De qualquer maneira, estamos de volta com mais um episódio de “Politiquices”, desta vez para vos falarmos de um assunto muito badalado neste último mês: a entrada do FMI em Portugal, a demissão do governo e a perspectiva de eleições antecipadas.

Ora, comecemos então por esclarecer aqui que nenhum dos membros das equipas de redacção e de administração apoia um partido político. As nossas opiniões políticas são formadas com base naquilo que vemos e não naquilo que nos é impingido ou incutido. Assim sendo, pedimos que não se exaltem ao ler este post (caso a vossa opinião seja divergente da nossa) e que não deixem de visitar o nosso mui nobre blog por esse tipo de razões.

Esclarecimentos já feitos, passemos então ao que é importante. De facto, este assunto já deu imenso que falar, continuando ainda nas luzes da ribalta. Contudo, parece-me que há algumas opiniões um bocado distorcidas relativamente àquilo que se realmente se passa. Comecemos então pelo habitual início.

Ao verificar as condições sócio-económicas do país, José Sócrates propôs à AR o PEC IV no dia 21 de Março de 2011, proposta essa que foi chumbada pelo PSD (ver ainda aqui), PCP, BE. Vemos que o PCP estabeleceu, com a sua proposta de resolução, que o seu único objectivo seria demonstrar ao Parlamento que “havia possibilidades de um outro PEC se o Governo quisesse”. Como vemos, os objectivos dos nossos deputados são nobres e de altíssimo valor moral – o importante é, portanto, ter razão. Ainda mais coerente (em termos lógicos e morais) é o facto de Jerónimo de Sousa ter referido que a classe médica tem “uma palavra importante a dizer num momento em que se anunciam grandes preocupações, de redução das comparticipações, de privatização de áreas do Serviço Nacional de Saúde”. Ou seja, quem tirar medicina pode comentar assuntos de ordem económico-social e de gestão financeira e política. Como se já não bastasse o prestígio e influência absurdos da classe médica neste país, ainda lhes estão a dar o privilégio de comentar a actual situação política portuguesa * (ver Politiquices (Ep. XI, Parte B – Multifunções e multi-esterqueira portuguesa)). Não que não possam ter uma opinião – toda a gente pode e deve ter uma opinião. O que questiono aqui é o facto de se colocarem algumas opiniões num pedestal quando lá não devem ser colocadas.

O único partido com uma postura mais ou menos “amena”, digamos assim, foi talvez o CDS-PP, que sugeriu algumas mudanças ao PEC IV e assumiu a hipótese de o recusar, não tendo sido, contudo, inflexível. Ainda assim, as mentalidades de má fé dominam todo e qualquer deputado que se preze, pelo que toda esta “boa acção” (usando de muita imaginação e boa vontade) do CDS-PP é anulada com o tipo de discurso e posicionamento (agora sim) inflexível e determinista, que demonstra um único interesse: denegrir outros para sublimar a imagem do próprio partido. Também nos Açores e na Madeira as opiniões não foram favoráveis ao PEC IV.

No meio de toda esta balbúrdia parlamentar, Sócrates teve ainda oportunidade de apresentar um projecto de resolução de apoio às medidas propostas no PEC IV. Contudo, não o fez. No dai 23 de Março de 2011, José Sócrates apresentou a sua demissão à Presidência da República. O mais curioso é o facto de terem sido elogiadas as medidas do PEC IV pela União Europeia e pelo Banco Central Europeu.

Entre todos estes disparates, há sempre alguns que dão vontade de rir por si só. Entre eles, contam-se os seguintes:

Deputada do BE diz que o próximo Governo vai ser decidido pelo povo. A deputada conhece, portanto, o significado estabelecido no dicionário para o vocábulo “democracia”. Entretanto, Manuela Moura Guedes afirma que foi corrida da TVI para o Governo ganhar as eleições. A jornalista confessou fazer parte de um grupo conspiratório que planeava sabotar os resultados eleitorais. Foram também descobertos esquemas que ilustravam a implantação de bombinhas de mau cheiro na AR. Descobriu-se ainda que tudo isto foi provocado por uma falha no fornecimento de electricidade à AR, no dia 22 de Março de 2011. A culpa do chumbo do PEC IV, da demissão do governo e da entrada do FMI em Portugal foi, portanto, da EDP, já que os deputados deram por si a serem ofuscados pela fluorescência dos próprios neurónios. Foi aproveitado este momento para fazer uma contagem de células nervosas e concluiu-se que, na cabeça de cada deputado, existem apenas 2,3 neurónios.

2º Aniversário do Pardieiro da Tojeira

Pois é, caros leitores! Hoje, dia 7 de Março de 2011, o Pardieiro da Tojeira faz 2 anos! E queremos agradecer a todos os que se mantiveram fiéis a este blog. Queremos agradecer aos que, ao longo destes 2 anos, se mantiveram por cá e leram as nossas opiniões, os nossos desabafos. Queremos agradecer aos que se riram das nossas piadas, dos nossos disparates.

Sem essas pessoas, este projecto já teria afundado. É sempre necessário haver alguém que nos encoraje, senão a motivação abandona-nos e as aspirações acabam por morrer. Ora, o nosso agradecimento vai precisamente para os que não deixaram que esta aspiração, este projecto, este sonho morresse.

Obrigado a todos!

 

Cumprimentos.

As Vacas Não Dão Chouriças: “Trambolho Musical”

«Caros leitores, tenho o prazer de vos comunicar que, durante o passado fim-de-semana, eu e uma das colaboradoras aqui do ‘Vacas’ (Wiscat) tivemos uma experiência musical algo transcendente…»

Para ler a crónica integral, clique no excerto (ou aqui) ou aceda ao blog do “As Vacas Não Dão Chouriças“.

Lata de Sardinhas (Ep. IV – Heróis sem armas)

Bem, como não nos fartamos desta rubrica (especialmente, por ser tão flexível), e para vos compensar da nossa acentuada ausência, aqui está mas um episódio de “Lata de Sardinhas”.

No episódio anterior, fizemos uma pequena menção ao consumismo… Neste episódio, tencionamos descobrir a sua causa última (ou primeira. É, de qualquer das formas, a causa absoluta do consumismo) – a ignorância ou, noutra palavra, a idiotice. Vamos, contudo, focar-nos apenas na idiotice da juventude dos dias de hoje.

Todos sabemos a influência esmagadora que as celebridades exercem no estilo de vida dos jovens contemporâneos. E isso não teria nada de mal, se essa influência não fosse exercida da pior maneira possível. Hoje, vamos discutir um exemplo disso. Vejam o seguinte vídeo:

É fantástico, não é? Quero dizer, acho fabulosa a forma como se constrói uma indústria em redor de uma celebridade. Já não são só as t-shirt’s, os cachecóis, as camisolas, os autógrafos oficiais, os posters… Agora, fazem-se filmes cujas personagens principais são cantores com dotes de representação mal amanhados (piores ainda do que os dotes musicais), criam-se canais com episódios do dia-a-dia dos artistas… É absolutamente ridículo, ainda para mais quando o dia-a-dia dessas magnificências é tão completamente desinteressante, ou pior ainda, completamente estúpido. Quero dizer, quem é que quer ver o vocalista dos Tokio Hotel (uma pessoa com uma apresentação perfeitamente idiota, reflectindo a sua própria personalidade, ou melhor: a ausência dela) a fazer compras num supermercado nos EUA?! E repararam no “Proudly Presents”, no início? Minha nossa, aquilo é que é não ter noção da tristeza que se é…

Por amor de deus, ao que o mundo chegou! É precisamente por isto que qualquer pessoa decente que acabe de ver o vídeo que aqui acabámos de colocar tem cerca de 30% de probabilidades acrescidas de tentar suicídio nas próximas 24h!

Bem, deprimam-se um pouco mais e aproveitem a onda para comer gelado, porque o mundo não tem, de facto, qualquer hipótese de arranjo!…

Lata de Sardinhas (Ep. III – Salsichada popular, a boa herança cultural portuguesa)

Caros Pardiófilos, voltamos à actividade, depois de uma ausência que se prolongou durante mais tempo do que aquele que gostaríamos… Mas a verdade é que, devido à força de certas circunstâncias (nomeadamente, frequências, exames, etc.), fomos forçados a fazer uma pausa na redacção das nossas crónicas.

Em primeiro lugar, e como já terão notado várias vezes, hoje anunciamos a nossa decisão (difícil, mas necessária) de manter a escrita do português fiel à gramática ‘antiga’. Isto, claro, por força do hábito – e também por acharmos um perfeito disparate escrever “facto” sem “c”…

Considerando que o enunciado anterior nada tem a ver com o assunto que vos trazemos hoje, voltamos à actividade com mais alguns exemplos de como a grande maioria da música portuguesa foi feita para se ouvir apenas em caso de recurso a tortura chinesa. O nosso primeiro exemplo é o seguinte:

Ainda que seja uma dor insuportável ouvir este tipo de ‘melodias’, há alguém que consegue ir mais longe, tornando toda a significância da palavra “música” num marasmo de dor, sofrimento, mágoa, angústia e até, problemas intestinais… José Castelo Branco (já aqui o mencionámos) não se cansa de tentar – o quê, ainda não se sabe bem, mas lá tentar, o moço tenta!…

É nesta actuação que conseguimos vislumbrar o interior da ‘mente’ ‘alma’ ‘personalidade’, vá, de Castelo Branco: consumismo, consumismo, consumismo, Channel, consumismo,… Aliás, depois de vermos isto somos obrigados a concluir (está cientificamente provado) que este tipo de ‘pessoas’ não tem, de facto, qualquer cérebro. Em vez disso, possuem uma ervilha com ligações directas ao intestino…

Mas pronto, passando este triste episódio de enxaqueca à frente (e para concluirmos alguma coisa, senão nunca mais daqui saímos!), qualquer pessoa com um mínimo de perspicácia chega à sensata conclusão de que a indústria musical portuguesa está culturalmente falida, tal como a indústria cinematográfica. É precisamente por isso que deixamos aqui alguns vídeos para que possamos todos aprender o que é música e o que é cinema…

NOTA: Aconselhamos a que se vejam os vídeos pela ordem em que foram aqui disponibilizados, para uma melhor aprendizagem. O último vídeo é uma pequena produção cinematográfica, elaborada com a informação absorvida ao longo de todo este ‘workshop’…

Inocência Mundana – Cap. VII

Saudações, caros leitores.

Vimos dar seguimento às nossas crónicas da “Inocência Mundana”. Já aqui falámos da morte (Inocência Mundana – Cap. VI: Parte 1 | Parte 2 | Parte 3); Hoje, vamos falar-vos de um assunto que se estabelece como sendo a base da própria vida: as emoções.

Este post vem (claro!) em seguimento de uma das recomendações que colocámos na página de Sugestões: é um filme chamado “Equilibrium” e, apesar de os efeitos especiais estarem um bocado… fatelas, digamos, o propósito do filme em si foi conseguido (e concebido, diga-se) de uma forma simplesmente brilhante.

Pressupõe-se, então, no filme, a existência de uma sociedade em que todos os cidadãos são obrigados por lei a tomar uma substância que permite que haja a inibição de todas as emoções e sentimentos. Outro aspecto a focar nesta sociedade é o facto de que todos os objectos de manifestação emocional (pintura, fotografia, música, cinema, teatro, literatura – arte em geral) são completamente destruídos. Escusado será dizer que, numa sociedade como esta, qualquer tipo de conflito seria rapidamente resolvido, ou até mesmo inexistente.

Reflictamos agora na importância da presença de emoções, ao invés da sua ausência. A verdade é que uma sociedade como esta (baseada estritamente na disciplina e na racionalização extrema das situações) simplesmente não funcionaria. Ou então funcionaria, se de seres humanos não se tratasse. Já tantas vezes aqui dissemos mal do ser humano, mas creio que nunca focámos um dos aspectos que o tornam simplesmente fascinante (a ele e a outros animais): a capacidade de sentir. Sentir, simplesmente. Sentir alguma coisa – cólera, paixão, medo, ódio,… É precisamente o sentir que nos confere a capacidade (negligenciada por cerca de 99,9% da população mundial) de raciocinar. E digo raciocinar verdadeiramente – porque a razão não seria “racional” sem a emoção. Damásio (“O Erro De Descartes”) diz o mesmo, mas com muito mais cientificidade e credibilidade do que eu…

É precisamente por tudo isto que é importante ser-se sensível para os momentos da vida em que sentimos alguma coisa… É tão importante odiar como amar. O mesmo se aplica à cólera, ou ao medo…

 

É importante reconhecermos os momentos em que sentimos alguma coisa. É, sobretudo, importante “senti-los”, e não apenas reconhecê-los. Senão, todo o nosso percurso de vida será marcado por uma infinidade de vazios, vazios que não preenchemos porque não sentimos nada nesses momentos. Todas as vidas têm um propósito em comum: Viver. E quem Vive tem o privilégio de chegar ao fim do seu percurso com memória daquilo que Viveu. Aqueles que não sentem, contudo, chegam ao final com as mãos cheias do Nada que “viveram”